PADRE ANTÔNIO VIEIRA E OS HOLANDESES NO BRASIL


Carta do Padre Antonio Vieira, 1626 


“Com a luz do dia seguinte apareceu a armada inimiga, que repartida em esquadras vinha entrando. Tocavam-se em todas as naus trombetas bastardas, ao som de guerras (…) Divisavam-se as bandeiras holandesas, flâmulas e estandartes (…)
E tal foi a tempestade de ferro e fogo, tal o estrondo e a confusão que a muitos, principalmente aos poucos experimentados, causou perturbação e espanto, porque por uma parte os muito relâmpagos fuzilando feriam os olhos, e com a nuvem espessa de fumo não havia quem visse; por outra, o contínuo trovão da artilharia tolhia o uso da língua e das orelhas, e tudo junto, de mistura com as trombetas e mais instrumentos bélicos, era terror de muitos e confusão de todos" 
(...)
Saqueadas já e destruídas as casas, vão*se aos templos 
os sacrílegos, e aqui fazem o principal estrago. Arremetem 
com furor diabólico às sagradas imagens dos santos e do 
mesmo Deus: quis talia fando iemperet à lacrimis. A 
esta tiram a cabeça, àquela cortam os pés e mãos, umas 
enchem de cutiladas, a outras lançam no fogo. Desarvo-
ram e quebram as cruzes, profanam altares, vestiduras e 
vasos sagrados; usando dos cálices, onde hontem se con 
sagrou o sangue de Cristo, para em suas desconcerradas 
mesas servirem a Baco, e dos templos e mosteiros dedi 
cados ao serviço e culto divino, para suas abominaçÕes e 
heresias. Tal foi a misericórdia do nosso Deus que quis 
então tomar em si a maior parte do castigo, por não nos 
castigar com outro maior, como nossos pecados mereciam. 
Depois desta entrada não se ocuparam todos nos des 
pejos, mas a alguns deu a nossa fugida ousadia para saírem 
da cidade; entre estes vieram ter à nossa quinta sete, mas 
sem armas de fogo. Estava aqui um padre grave, que se 
deixara ficar em companhia de alguns enfermos, com 
esperança de uma gloriosa morte por seu amor, se Deus 
fosse servido. Este não deixou passar a ocasião de se 
confessar a si e aos companheiros, em presença dos hereges, 
deses... Subiram alguns à casa do governador, que neste tempo 
quis pôr fogo a uns barris de pólvora, para abrasar-se, se Pero Cas-
queiro lhe não tirara o morrão da mão. E, vendo-os entrar, levou 
da espada e remeteu a eles, mas emfim o prenderam e aos que com 
êle estavam, e os repartiram pelas naus 
por católicos romanos, que eles tanto aborrecem: como 
foi qije, indo um com a espada nua para um crucifixo, o 
padre lhe foi à mão dizendo que aquela era a imagem 
verdadeira do filho de ©eus Jesus Cristo, digna de toda a 
veneração; e pedindo-lhe eles carne íha negou, e disse 
que a igreja católica e romana a proíbe a seus fiéis nas 
sextas-feiras, qual aquele dia era, e portanto lha não havia 
de dãr. Deu-lhes porém outras coisas de comer, e artfes, * 
no benzer da mesa, e depois, no dar das graças, nomeou 
distintamente as pessoas da Santíssima Trindade, ao que 
eles cobriram o rosto, e logo, com grande fúria quebrando 
tudo, e deitando com desprêso por terra as imagens, relí 
quias e ornamentos dos altares, fizeram presa nos cálices 
e lampadários e outra prata, e a levaram comsigo. 

J. Lúcio D’Azevedo. Cartas do Padre Antonio Vieira – coordenadas e anotadas. Tomo Primeiro. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1925, p. 14-15. 
Disponível em: 
http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/01951310#page/1/mode/1up

As alternativas a seguir foram elaboradas pela Unicamp para a Olimpíada Nacional de História do Brasil. Apenas uma é falsa e das verdadeiras apenas uma é a mais pertinente!


Alternativas
A. O texto é uma descrição da invasão holandesa à Bahia, iniciada logo após o sucesso do ataque ao litoral de Pernambuco, que deu início ao governo de Maurício de Nassau.
B. O padre vê com um olhar negativo os holandeses, o que pode ser explicado por sua posição política e social de representante do Estado português.
C. A função no Estado português e seu pertencimento à ordem jesuítica, que combatia as igrejas reformadas, levavam Vieira a rechaçar os holandeses.
D. A narrativa do padre Antônio Vieira descreve a violência da chegada holandesa à Bahia e caracteriza essa armada como inimiga.

Resposta:

Mais pertinente: C
segunda e terceira: B e D
errada: A, pois a invasão holandesa na Bahia é a primeira e seu fracasso levou à invasão de Pernambuco.

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